Huang Di, O Imperador Amarelo, construiu o arco
e nas flechas desenhou a escrita, sob panos de seda;
nas montanhas de jade o povo dos Zhou
pincelou em vermelho sangue
os ideogramas do Mandato do Céu.
Nas ruas de Lisboa há lobos soltos na chuva,
de pelo molhado, cujas patas moles raspam o solo
em busca de necrópoles romanas.
Debaixo do viaduto do eixo Norte-Sul
vejo os comboios resmungarem nos carris enquanto
recebo as gotas gordas da chuva em beijos na pele
e oiço trovões que estalam como toalhas ensopadas
e chicoteiam a carne da terra.
Os lisboetas resguardam-se do dilúvio,
abrigados em casulos de tijolo e cimento,
e escutam as gotas que respingam nos varões das varandas.
Escuto o resfolegar das folhas fustigadas pelo vento.
Algures, na caverna profunda das fábricas,
O Filho do Céu aguarda para reinar
outra vez sobre tudo debaixo do céu.
Saúl Villalobos
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