Saturday, April 17, 2010
De regresso a Lisboa
sentado à beira do Pessoa
bebo uma Vidago
enquanto o negro toca o fado
dele no saxofone
sopra, Charlie Parker,
diabo negro atormentado,
traça o meu Chiado
nesse teu sopro assombroso
de ave ferida
Viro a algibeira
as linhas descosidas de uma bandeira
que já não carrego comigo
sou sombra
um sopro de fantasmas passados, talvez
não, nem memórias;
apenas e só
um coração escangalhado.
Canta para mim, Lisboa.
Agora estamos sós
Saúl Villalobos
Monday, March 17, 2008
Bagdade, das mil e uma noites de Xerazade
as estrelas no teu firmamento são rockets,
que sibilam e ressoam no pano da noite,
ao largo e ao longo das margens do Tigre.
As academias onde foram traduzidos Platão, Aristóteles e outros tantos,
pais da filosofia e do saber da civilização ocidental,
são agora escombros de onde se erguem colunas de fumo
ou mesquitas, bibliotecas e hospitais cravejados de balas.
Dos jardins da Babilónia já nada resta.
Hoje existe apenas o ressentimento de um povo
contra uma história triste de ocupação,
desde os otomanos aos europeus,
que com os seus mapas cor-de-rosa
instrumentalizaram o ódio de irmãos
que, em nome de califas e aiatolas,
se acusam e matam por Maomé, o Profeta.
És como um grande elefante
que vacila sob o jugo das lanças daqueles
que lhe cobiçam o marfim
e do teu ventre brota sangue negro e espesso
que a muitos enriquecerá e a muitos mais dará jeito.
Mas devo confessar, Bagdade,
que as misérias e tragédias do teu povo
não são mais que palavras que um jornalista
vai lendo no teleponto num tom de voz profissional,
e nos fala de fogo amigo, operações cirúrgicas e forças de paz,
e que todos os dias nos vai estoicamente informando
das desgraças que ocorrem nas mil e uma noites de Bagdade.
Saúl Villalobos
Thursday, April 26, 2007
Sentados à beira do verão
Sentados à beira do verão
não vimos que tudo se desmoronava.
Assim, com palavras,
lentas e certeiras,
em promessas vãs de homens sujos.
Destroem-nos,
Destroem tudo aquilo que é bom em nós,
a nossa juventude e o nosso futuro.
Destróis-me, tu,
com a tua culpa amarga.
O peso dos teus fracassos nos meus ombros.
Destrói-me,
toda a incerteza de um povo,
e todo o sangue, suor e sofrimento
que foram necessários à História.
E destruo-me.
Destruo-me,
Destruo-me tanto.
Tudo desmoronava,
na televisão, em directo,
com palavras,
das nossas vidas, do mundo,
sempre, obstinadamente,
nos nossos sonhos.
Sentados à beira do verão
rimos uma última vez.
Saúl Villalobos
Sonhos de um poeta que se interroga
Saúl Villalobos
Leio versos de Saúl Villalobos à beira Tejo
e vejo um homem que foi cuspido para fora desta cidade.
Os versos amarrotados nos meus dedos sujos,
como eu queria escrever como ele e não ser ele!
Não, Sartre, os poetas não são homens que recusam a linguagem,
são antes para sempre seus prisioneiros,
teimosamente negando o seu próprio cativeiro.
A podridão da cidade arrasta-se até às margens do rio.
Carcaças de naus e buzinas de cacilheiros perdidas no leito,
iodo a boiar nas minhas narinas,
e um homem cuspido para fora desta cidade.
Porque será tão difícil ser-se português em Portugal?
Entre Belém e a Ajuda os Senhores do Corvos ordenam,
de anéis nos dedos gordos e colarinhos imaculados,
e do alto dos seus palácios e torres de feiticeiros
tecem a trama em que esta cidade se afunda.
Nas minhas mãos seguro os manuscritos
deste poeta de versos tristes e nostálgicos.
Não queria ser ele, deve ser um tipo sério,
demasiado sério.
Atrás de mim passa o comboio,
a martelar as juntas do caminho-de-ferro
pachorrento, as gaivotas a refilarem
neste final de tarde invernoso
e recordo-me
daquele odor azedo do aço nas carruagens
antigas, e estas são modernas, mas às vezes
acho que Lisboa estagnou no tempo,
embora o disfarce como um coxo
que vai fugindo de uma mentira.
Os candeeiros acendem-se
no crepúsculo e as ruas ficam amarelas
e lúgubres. Acendo um cigarro triste
e conformo-me.
Leio os versos de Saúl Villalobos
Aqui, onde os marujos da noite nunca chegam
a Goa, Damão e Diu.
Saúl Villalobos
Friday, March 16, 2007
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um menino de quinze anos
atormentado pelos dramas da adolescência
e um homem cruel que esqueceu o que é ser menino.
Há uma aldeia de interior onde chovem alforrecas do céu,
perante o pasmo e o terror da população crente.
Há mãos toscas e brutas que se precipitam
sobre o corpo atordoado de uma mulher,
sob a ameaça de uma navalha covarde,
e o vertiginoso espasmo de um orgasmo porco.
Há o silêncio tenebroso que se abate sobre o capim,
e o soldado que, momentos depois, recolhe
as entranhas e os pedaços do melhor amigo
estraçalhado numa mina anti-pessoal.
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um laboratório de abortos deformados
que lançam guinchos tremendos das suas jaulas.
Há predadores autofágicos que devoram os seus próprios membros
enquanto se esvaem em esguichos de sangue morno.
E há soldados a marchar pelas ruas de uma cidade alemã:
o troar das suas botas negras simultaneamente soberbo,
simultaneamente terrível.
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um gatilho para accionar o fim do mundo.
Saúl Villalobos
Monday, March 05, 2007
Apetece-me ficar aqui deitado a vida toda
Apetece-me ficar aqui deitado a vida toda,
à espera dela...
Deitado a deixar a cidade a rugir lá fora
furiosamente os carros e as pessoas e o cimento
absorvo tudo lentamente hoje em dia
Já quis morrer
ou hibernar numa caverna como um urso.
Na verdade, morro sempre um bocadinho
de cada vez que um dia é uma semana
e uma semana é um mês.
Lembro-me vagamente de como a melhor parte de mim
era reflexo nos olhos dela e estremeço
um homem feito a chorar em cima dos lençóis.
(Um homem feito? Um homem nunca está feito)
Fecho os olhos. Quero viver aqui dentro,
com o sorriso dela, a voz, o toque, os beijos.
Estremeço.
E enquanto os amantes devoram a carne
para que possam preencher os segundos,
eu conto os segundos que me vazam o corpo,
à espera do regresso daquela...
Saúl Villalobos
Saturday, March 03, 2007
Não pares coraçãozinho de papel, não pares
que a Primavera já lá vai, mas ainda pouco fiz;
Não pares, no teu bater ensopado de querosene:
carvão na boca, veneno no sangue e sonho na alma;
Bum-bop bum-bop rufa o teu tambor bum-bop,
e ainda que sujeitando esta casquinha de noz
aos mais encapelados mares, não pares
Meu coraçãozinho de papel relógio:
o teu vaivém é um acaso,
um prodígio da mecânica das coisas;
Tic-tac, tic-tac, tic-tac
gira a engrenagem na sua cadência regular,
empurrando as agulhas no mostrador,
mas às vezes o ponteiro dos segundos pára e deixa-se ficar.
Por isso, e ainda que eu feche os olhos,
não pares, coraçãozinho de papel, não pares!
Saúl Villalobos
Thursday, October 26, 2006
Na Cidade dos Corvos
Na Cidade dos Corvos
quem manda são os banqueiros
e os doutores, tecnocracia engravatada
e compadrio dos favores,
que se passeiam pelo Palácio da Justiça,
(onde se é tudo menos certo ou justo)
a legislarem entre a moral e a utilidade
das coisas e daquilo que engorda e dá poder.
O povo, esse já não sorve demagogia;
mas lutam engalfinhados como se fossem cães
a disputar um osso podre ou um naco de carne bolorenta.
Sentam-se em queixumes enquanto recuperam o fôlego.
No Bairro Alto, os poetas emborrachados de vinho
digladiam-se entre si por umas poucas edições
em lógica de mercado ou então por um subsídio cultural,
Enquanto houver vinho, pão e subsídios ninguém fará nada.
Mas, por vezes, quando a bruma fria trepa do rio
e se alonga nas hastes cor de tijolo da ponte 25 de Abril,
os exércitos dos Macacos Espaciais de Chuck Palahniuk
marcham sobre as ruas e pulverizam os monumentos com tinta,
e relembram-nos que o poder brota de baixo para cima.
Saúl Villalobos