Thursday, October 26, 2006

Na Cidade dos Corvos

Na Cidade dos Corvos
quem manda são os banqueiros
e os doutores, tecnocracia engravatada

e compadrio dos favores,
que se passeiam pelo Palácio da Justiça,

(onde se é tudo menos certo ou justo)
a legislarem entre a moral e a utilidade
das coisas e daquilo que engorda e dá poder.

O povo, esse já não sorve demagogia;
mas lutam engalfinhados como se fossem cães
a disputar um osso podre ou um naco de carne bolorenta.
Sentam-se em queixumes enquanto recuperam o fôlego.
No Bairro Alto, os poetas emborrachados de vinho
digladiam-se entre si por umas poucas edições
em lógica de mercado ou então por um subsídio cultural,

e esquecem que a poesia é muito mais que uma bela palavra.

Enquanto houver vinho, pão e subsídios ninguém fará nada.

Mas, por vezes, quando a bruma fria trepa do rio
e se alonga nas hastes cor de tijolo da ponte 25 de Abril,
os exércitos dos Macacos Espaciais de Chuck Palahniuk
marcham sobre as ruas e pulverizam os monumentos com tinta,
e relembram-nos que o poder brota de baixo para cima.


Saúl Villalobos

Wednesday, October 25, 2006

Construí eu o mundo

Construí eu o mundo,
em pedaços de barro e de areia
que o mar levou.

Sou uma sombra.

Como o Jeff Bridges em Fearless,
este corpo opaco já não tem chama.
Foi-se, não numa manhã de nevoeiro,
mas numa tarde na escola,
a debater-me com a efemeridade da mente.
E agora tenho saudade das árvores,
mas só me resta a chuva,
que quando cai
detém o tempo,
ainda que por breves instantes.

mas fomos imortais naqueles verões infindáveis
em que subíamos às árvores e
fazíamos batota nas corridas de carrinhos.
fomos imortais quando as nossas mães
nos deixavam na escola e chorávamos
e fazíamos chichi nas calças.
fomos imortais de Inverno,
a ver a chuva lá fora dançar
nos focos dos candeeiros.
fomos imortais, deitados na relva,
a segurar o mundo na ponta dos dedos,
enquanto imaginávamos como seria sermos crescidos.


Saúl Villalobos

Hoje li num blogue que não é possível escrever poesia por instinto

Hoje li num blogue que não é possível escrever poesia por instinto.
É preciso desenhar o verso e dominar a estrutura interna do poema,
ordenando a inspiração pela mestria do pensamento sublime.
É preciso ler poesia. Não, é preciso ler muita e ler bem a poesia.
(Nunca li poesia)
Que farei eu com as palavras então?
Arrear o meu pensamento com cabrestos
seria como tentar colher o vento nas mãos em concha

Saúl Villalobos

A Terra molenga no seu eixo

A Terra molenga no seu eixo,
estalando na sua rotação intemporal,
e rasga o papel de seda do céu.
(os astros sempre a caírem
no fundo do saco negro de veludo.)

se eu pudesse estender os braços apanhava-os nas palmas das mãos,
assim, como se fossem gotas de orvalho;
e colhia as estrelas prateadas no fundo do saco,
uma a uma.

Mas, depois, quem me apanharia a mim?

Saúl Villalobos

Friday, October 20, 2006

Wake up

Wake up.

O rapaz observa
o coelho sinistro
no espelho.

Ele sabe,
como Albert Camus,
que se encontra na fímbria do tempo,
preso no labirinto da sua própria existência.

Às vezes a vida é demasiado injusta,
e lança-nos o amor,
apenas para um breve beijo de passagem.
Olá. Adeus.

E dentro de nós,
o universo das nossas células
desfaz a sua própria história.

A eternidade é demasiado para sempre.

Donnie Darko, o rapaz,
sabe que o mundo vai acabar
em 28 dias, 6 horas, 42 minutos, e 12 segundos.


Saúl Villalobos

Wednesday, October 18, 2006

Há qualquer coisa de intangível na noite que busca os poetas

Há qualquer coisa de intangível na noite que busca os poetas,
no eterno urdir do real entre os fios de chuva.

Esses teus dedos nojentos apertam-me no cair da noite, como?
Se eu já te esmaguei na palma da minha mão,
de onde sais tu agora, sombra do destino?
Sempre a atormentar-me os sonhos,
pronta nos lábios da selva,
neste tango descompassado.

Os pobres nunca encontram trabalho

(o trabalho é que os encontra a eles)
Perdidos no rilhar da noite,
as veias apertadas de gordura e de querosene,
feridos na sombra da cidade.

(os poetas vivem sozinhos no espaço entre o eu e o nós.)

E este teu tango argentino,
que suplica sempre,
infinito, no comer da noite.


Saúl Villalobos

Os corvos circundavam o Terreiro do Paço em voos picados

Os corvos circundavam o Terreiro do Paço em voos picados
e eu apertava a gabardina até aos ossos,
a picar a calçada lisboeta que me fugia dos pés,
quando ouvi o Saul Williams a pregar o estigma dos negros,
aqui, nesta cidade de escravos.

e parei e apercebi-me a escravatura dos jornais,
da televisão e das palavras.
Mas então Bob Marley falou e libertei-me.


Saúl Villalobos

A águia americana rasa a erva da pradaria

A águia americana rasa a erva da pradaria
e o Deus Sol espera sentado no seu trono de prata,
no topo de Machu Picchu.

Kanye West arrasa a pista do Convento,
onde os angolanos ensaiam os seus passos africanos
e as damas transpiram, em corpos Dolce & Gabbana,
convites secos de sexo descomprometido.

Mas os poetas bebem sozinhos nos bares da cidade de Lisboa,
fitando os círculos de espuma sob os seus narizes,
enquanto escrevem estrofes duras e independentes em guardanapos de papel.

Lá fora, no cinzento roxo da noite,
o céu baixo lança os seus dedos luminosos sobre Lisboa,
enquanto sorvo o pingar dos dias pelos poros da pele.
Sentei-me na Cidade Perdida
e teci o mundo em meus dedos trémulos.

Saúl Villalobos

Huang Di, O Imperador Amarelo, construiu o arco

Huang Di, O Imperador Amarelo, construiu o arco
e nas flechas desenhou a escrita, sob panos de seda;
nas montanhas de jade o povo dos Zhou
pincelou em vermelho sangue
os ideogramas do Mandato do Céu.

Nas ruas de Lisboa há lobos soltos na chuva,
de pelo molhado, cujas patas moles raspam o solo
em busca de necrópoles romanas.

Debaixo do viaduto do eixo Norte-Sul
vejo os comboios resmungarem nos carris enquanto
recebo as gotas gordas da chuva em beijos na pele
e oiço trovões que estalam como toalhas ensopadas
e chicoteiam a carne da terra.

Os lisboetas resguardam-se do dilúvio,
abrigados em casulos de tijolo e cimento,
e escutam as gotas que respingam nos varões das varandas.

Escuto o resfolegar das folhas fustigadas pelo vento.
Algures, na caverna profunda das fábricas,
O Filho do Céu aguarda para reinar
outra vez sobre tudo debaixo do céu.


Saúl Villalobos

Saturday, October 14, 2006

O almuadem tece a alvorada com a voz

O almuadem tece a alvorada com a voz
do alto da torre de lápis-lazúli.
Allah hu Akbar, chama
e as sombras vestem os corpos
ou são os corpos que não projectam sombra,
como num romance de Murakami.

Corvos repousam na estátua de D. Pedro IV,
e os lisboetas lançam-se na lufa-lufa dos transportes,
numa rotina bruta e estúpida,
todos os dias a mesma hora certa,
o suor, os calos, o ganha-pão,
e o cheiro nauseabundo de vidas alheias.

Lembro-me de olhar para o céu nocturno
à espera que as estrelas me caíssem em cima.
Queria ser desobediente como Thoreau,
mas sou apenas um trovador sem fé nas palavras,
(e sem palavras de fé)
que aporta onde houver um botequim e uma história.

Allah hu Akbar, e as sombras vestem os corpos,
negras como as penas dos corvos que vazam olhos.
Dizem que a morte cheira a merda, a sémen e a húmus,
mas fede também a enxofre, a petróleo e a nitrato de potássio.
Limpa as tuas mãos ensanguentadas à farda
que hoje tombam aviões de papel dos céus.


Saúl Villalobos

Como um croquete e bebo uma cerveja

Como um croquete e bebo uma cerveja,
enquanto observo a impaciência da carne e do néon.

Aqui, na Rua da Prata,
onde outrora houve banhos romanos,
há putas na rua de corpos seminus e de olhares amargos.
Dizem: Queres que dance para ti?
e tu respondes: rasteja, rebola, estica, espeta;
há olhos baços que se prendem a desenhos de coxas torneadas,
a nádegas empinadas em cima de saltos altos,
a peitos cheios e firmes, desnudados em focos de luz,
e a ancas serpenteantes e a olhares que fuzilam.
O perfume destas mulheres embriaga,
mistura-se no sangue com o álcool que ferve nas veias
e com a cocaína que explode no cérebro.
Eles desejam um segundo de suor
Eles desejam um minuto de carne
Eles desejam mãos que descobrem prepúcios
e lábios e bocas cingidas em volta de pénis
A respiração sustém-se na promessa de uma mentira
porque a voracidade do corpo é ensurdecedora.
Elas cavam os dedos nas feridas e no oiro
Elas cavam os dedos nas feridas e no oiro

De madrugada os bordéis estão vazios.
Elas têm ovos cozidos na boca e dão puns;
a maquilhagem borra a pele engelhada,
e na claridade fina da manhã já nenhum homem as quer.

Saúl Villalobos

Friday, October 13, 2006

eles não quiseram saber dos subúrbios da cidade

eles não quiseram saber dos subúrbios da cidade,
atulhados de sombras corcundas e de amarguras latejantes.
Calvário brutal de sangue e de suor,
onde marujos carcomidos pela labuta dos dias
bebem cerveja e naufragam de sonho em sonho,
de dia em dia, todos os dias;
e pedem a deus que os resgate da miséria da carne.
Estendem a mão, roubam. Reclamam pão para a boca,
Esperam. De mãos nos bolsos e olhares largados na calçada,
Alinham-se nas filas das esmolas estatais.
Querem, afinal, tão-só um pouco de luz que entretenha a escuridão da alma
porque os ossos e a pele já há muito que esqueceram o mar e o sal.

por vezes, os homens quase que choram de vergonha,
mas fazem-se de fortes e soluçam baixinho,
e logo voltam a ser homens:
apunhalam-se, bebem, peidam-se, cobiçam e amaldiçoam-se;
rosnam pragas entre dentes
e criam cães tinhosos.

Saúl Villalobos

Wednesday, October 11, 2006

riem-se de mim, as velhas varinas desdentadas

riem-se de mim, as velhas varinas desdentadas,
sentadas no cais enlodaçado,
à espera do peixe que não vem

(não saberão elas que nunca mais virá?)
Fumam haxixe e cospem no chão,
e por cima delas já não há gaivotas.

Em Santa Apolónia o céu é sempre sangue-de-boi,
e os mendigos fedem a mijo e a vinho.
Embrulham-se nos jornais de ontem,
enquanto esperam as locomotivas que relincham carvão e fuligem,
rasgando a paisagem no seu trote feroz.

E lá em cima no Cabido, nas escadinhas da igreja da Sé,
Seu Jorge canta o mundo azul de David Bowie,
desafiando o corvejar e o esvoaçar dos corvos.

Saúl Villalobos

Desembarquei na Cidade dos Corvos

Desembarquei na Cidade dos Corvos,
onde os poetas se enforcam no cordame dos navios
e o rio tresanda a lodo e a óleo de motor.

Limpo as borras de vinho dos cantos da boca.
Sou passageiro efémero nesta cavalgada brutal,
trago a guitarra a tiracolo e os versos presos numa caixa de papelão.
Carrego a epopeia na mão e a elegia no fado,
a erosão dos dias amarfanhada nesta figura boçal,
e a fome, tanta fome, no coração.

Chego, um cigarro dependurado dos lábios,
a esta cidade onde os corvos mergulham do ocre-vermelho nos céus
para debicar olhos furiosamente na cúpula do Panteão.

Chego, a esta cidade vencida ao mar e ao sal,
com as cinzas de Bagdade nos bolsos da algibeira,
e a diáspora e a saudade calçadas na bandeira.


Saúl Villalobos

despeja a querosene na aurícula esquerda

despeja a querosene na aurícula esquerda
transformada em câmara de combustão
e depois através da válvula mitral
para o ventrículo que expele os gases na aorta
e cá dentro as palavras ardem como papel
(sempre a arderem)
eles não sabem que os corpos são apenas sombras,
mas Shakespeare sabia-o.

eles não sabem que os corpos são apenas sombras,
perdidas no compasso nervoso deste labirinto
de querosene e papel.

Saúl Villalobos