Saturday, October 14, 2006

O almuadem tece a alvorada com a voz

O almuadem tece a alvorada com a voz
do alto da torre de lápis-lazúli.
Allah hu Akbar, chama
e as sombras vestem os corpos
ou são os corpos que não projectam sombra,
como num romance de Murakami.

Corvos repousam na estátua de D. Pedro IV,
e os lisboetas lançam-se na lufa-lufa dos transportes,
numa rotina bruta e estúpida,
todos os dias a mesma hora certa,
o suor, os calos, o ganha-pão,
e o cheiro nauseabundo de vidas alheias.

Lembro-me de olhar para o céu nocturno
à espera que as estrelas me caíssem em cima.
Queria ser desobediente como Thoreau,
mas sou apenas um trovador sem fé nas palavras,
(e sem palavras de fé)
que aporta onde houver um botequim e uma história.

Allah hu Akbar, e as sombras vestem os corpos,
negras como as penas dos corvos que vazam olhos.
Dizem que a morte cheira a merda, a sémen e a húmus,
mas fede também a enxofre, a petróleo e a nitrato de potássio.
Limpa as tuas mãos ensanguentadas à farda
que hoje tombam aviões de papel dos céus.


Saúl Villalobos

4 comments:

Dinis Lapa said...

"mas sou apenas um trovador sem fé nas palavras,(e sem palavras de fé)". Mas o poema não o mostra, tem uma estética necessária e uma mensagem bela... ou será o oposto disto?

Villalobos said...
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Villalobos said...

sem palavras de fé, no sentido religioso da fé... uma fé em algo extra vida terrena. e sem fé no poder das palavras mudarem o mundo, por tudo o que vem acontecendo ao longo da história e que acontece hoje em dia, em que aviões "de papel" tombam dos céus. Mas isto, está certo, é a minha leitura. O poema já segue na vida própria...

Dinis Lapa said...

sim eu percebi, apenas referenciei de uma forma mais ou menos subtil que o poema tem mensagem, ao contrário da suposição do poeta sem fé nas suas palavras. que ele tenha fé pois os poetas mudam mundos!