Wednesday, October 11, 2006

riem-se de mim, as velhas varinas desdentadas

riem-se de mim, as velhas varinas desdentadas,
sentadas no cais enlodaçado,
à espera do peixe que não vem

(não saberão elas que nunca mais virá?)
Fumam haxixe e cospem no chão,
e por cima delas já não há gaivotas.

Em Santa Apolónia o céu é sempre sangue-de-boi,
e os mendigos fedem a mijo e a vinho.
Embrulham-se nos jornais de ontem,
enquanto esperam as locomotivas que relincham carvão e fuligem,
rasgando a paisagem no seu trote feroz.

E lá em cima no Cabido, nas escadinhas da igreja da Sé,
Seu Jorge canta o mundo azul de David Bowie,
desafiando o corvejar e o esvoaçar dos corvos.

Saúl Villalobos

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