Friday, March 16, 2007
Na caverna do rapaz chamado Corvo
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um menino de quinze anos
atormentado pelos dramas da adolescência
e um homem cruel que esqueceu o que é ser menino.
Há uma aldeia de interior onde chovem alforrecas do céu,
perante o pasmo e o terror da população crente.
Há mãos toscas e brutas que se precipitam
sobre o corpo atordoado de uma mulher,
sob a ameaça de uma navalha covarde,
e o vertiginoso espasmo de um orgasmo porco.
Há o silêncio tenebroso que se abate sobre o capim,
e o soldado que, momentos depois, recolhe
as entranhas e os pedaços do melhor amigo
estraçalhado numa mina anti-pessoal.
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um laboratório de abortos deformados
que lançam guinchos tremendos das suas jaulas.
Há predadores autofágicos que devoram os seus próprios membros
enquanto se esvaem em esguichos de sangue morno.
E há soldados a marchar pelas ruas de uma cidade alemã:
o troar das suas botas negras simultaneamente soberbo,
simultaneamente terrível.
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um gatilho para accionar o fim do mundo.
Saúl Villalobos
há um menino de quinze anos
atormentado pelos dramas da adolescência
e um homem cruel que esqueceu o que é ser menino.
Há uma aldeia de interior onde chovem alforrecas do céu,
perante o pasmo e o terror da população crente.
Há mãos toscas e brutas que se precipitam
sobre o corpo atordoado de uma mulher,
sob a ameaça de uma navalha covarde,
e o vertiginoso espasmo de um orgasmo porco.
Há o silêncio tenebroso que se abate sobre o capim,
e o soldado que, momentos depois, recolhe
as entranhas e os pedaços do melhor amigo
estraçalhado numa mina anti-pessoal.
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um laboratório de abortos deformados
que lançam guinchos tremendos das suas jaulas.
Há predadores autofágicos que devoram os seus próprios membros
enquanto se esvaem em esguichos de sangue morno.
E há soldados a marchar pelas ruas de uma cidade alemã:
o troar das suas botas negras simultaneamente soberbo,
simultaneamente terrível.
Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um gatilho para accionar o fim do mundo.
Saúl Villalobos
Monday, March 05, 2007
Apetece-me ficar aqui deitado a vida toda
Apetece-me ficar aqui deitado a vida toda,
à espera dela...
Deitado a deixar a cidade a rugir lá fora
furiosamente os carros e as pessoas e o cimento
absorvo tudo lentamente hoje em dia
Já quis morrer
ou hibernar numa caverna como um urso.
Na verdade, morro sempre um bocadinho
de cada vez que um dia é uma semana
e uma semana é um mês.
Lembro-me vagamente de como a melhor parte de mim
era reflexo nos olhos dela e estremeço
um homem feito a chorar em cima dos lençóis.
(Um homem feito? Um homem nunca está feito)
Fecho os olhos. Quero viver aqui dentro,
com o sorriso dela, a voz, o toque, os beijos.
Estremeço.
E enquanto os amantes devoram a carne
para que possam preencher os segundos,
eu conto os segundos que me vazam o corpo,
à espera do regresso daquela...
Saúl Villalobos
Saturday, March 03, 2007
Não pares coraçãozinho de papel, não pares
Não pares coraçãozinho de papel, não pares
que a Primavera já lá vai, mas ainda pouco fiz;
Não pares, no teu bater ensopado de querosene:
carvão na boca, veneno no sangue e sonho na alma;
Bum-bop bum-bop rufa o teu tambor bum-bop,
e ainda que sujeitando esta casquinha de noz
aos mais encapelados mares, não pares
Meu coraçãozinho de papel relógio:
o teu vaivém é um acaso,
um prodígio da mecânica das coisas;
Tic-tac, tic-tac, tic-tac
gira a engrenagem na sua cadência regular,
empurrando as agulhas no mostrador,
mas às vezes o ponteiro dos segundos pára e deixa-se ficar.
Por isso, e ainda que eu feche os olhos,
não pares, coraçãozinho de papel, não pares!
Saúl Villalobos
que a Primavera já lá vai, mas ainda pouco fiz;
Não pares, no teu bater ensopado de querosene:
carvão na boca, veneno no sangue e sonho na alma;
Bum-bop bum-bop rufa o teu tambor bum-bop,
e ainda que sujeitando esta casquinha de noz
aos mais encapelados mares, não pares
Meu coraçãozinho de papel relógio:
o teu vaivém é um acaso,
um prodígio da mecânica das coisas;
Tic-tac, tic-tac, tic-tac
gira a engrenagem na sua cadência regular,
empurrando as agulhas no mostrador,
mas às vezes o ponteiro dos segundos pára e deixa-se ficar.
Por isso, e ainda que eu feche os olhos,
não pares, coraçãozinho de papel, não pares!
Saúl Villalobos
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