Leio versos de Saúl Villalobos à beira Tejo
e vejo um homem que foi cuspido para fora desta cidade.
Os versos amarrotados nos meus dedos sujos,
como eu queria escrever como ele e não ser ele!
Não, Sartre, os poetas não são homens que recusam a linguagem,
são antes para sempre seus prisioneiros,
teimosamente negando o seu próprio cativeiro.
A podridão da cidade arrasta-se até às margens do rio.
Carcaças de naus e buzinas de cacilheiros perdidas no leito,
iodo a boiar nas minhas narinas,
e um homem cuspido para fora desta cidade.
Porque será tão difícil ser-se português em Portugal?
Entre Belém e a Ajuda os Senhores do Corvos ordenam,
de anéis nos dedos gordos e colarinhos imaculados,
e do alto dos seus palácios e torres de feiticeiros
tecem a trama em que esta cidade se afunda.
Nas minhas mãos seguro os manuscritos
deste poeta de versos tristes e nostálgicos.
Não queria ser ele, deve ser um tipo sério,
demasiado sério.
Atrás de mim passa o comboio,
a martelar as juntas do caminho-de-ferro
pachorrento, as gaivotas a refilarem
neste final de tarde invernoso
e recordo-me
daquele odor azedo do aço nas carruagens
antigas, e estas são modernas, mas às vezes
acho que Lisboa estagnou no tempo,
embora o disfarce como um coxo
que vai fugindo de uma mentira.
Os candeeiros acendem-se
no crepúsculo e as ruas ficam amarelas
e lúgubres. Acendo um cigarro triste
e conformo-me.
Leio os versos de Saúl Villalobos
Aqui, onde os marujos da noite nunca chegam
a Goa, Damão e Diu.
Saúl Villalobos