Thursday, April 26, 2007

Sentados à beira do verão

Sentados à beira do verão
não vimos que tudo se desmoronava.

Assim, com palavras,
lentas e certeiras,
em promessas vãs de homens sujos.

Destroem-nos,
Destroem tudo aquilo que é bom em nós,
a nossa juventude e o nosso futuro.

Destróis-me, tu,
com a tua culpa amarga.

O peso dos teus fracassos nos meus ombros.

Destrói-me,
toda a incerteza de um povo,
e todo o sangue, suor e sofrimento
que foram necessários à História.

E destruo-me.

Destruo-me,
Destruo-me tanto.

Tudo desmoronava,
na televisão, em directo,

com palavras,
das nossas vidas, do mundo,
sempre, obstinadamente,
nos nossos sonhos.

Sentados à beira do verão
rimos uma última vez.


Saúl Villalobos


Sonhos de um poeta que se interroga

Sonhos de um poeta que se interroga sobre quem é que dita o que é belo: Sempre fiz os meus sonhos a perscrutar o escuro do meu quarto, descobri os contornos da beleza dentro dos auscultadores nos ouvidos, a minha almofada o meu trono, o leito o meu coche dos sonhos. Brinquei de génio e sonhei o mundo. Naquele anoitecer mágico, Lagoa de Momprelé, a escutar Sigur Rós, música de contemplar as estrelas, costas no chão, o tecto do mundo o meu horizonte. Nada sei fazer bem senão sonhar, e a sonhar fingir ser poeta, e ser rapazinho no quarto escuro, a descobrir as arestas do mundo. Apanho as estrelas entre o indicador e o polegar e ponho-as na boca verbos, substantivos, advérbios e adjectivos.

Saúl Villalobos

Leio versos de Saúl Villalobos à beira Tejo

Leio versos de Saúl Villalobos à beira Tejo
e vejo um homem que foi cuspido para fora desta cidade.
Os versos amarrotados nos meus dedos sujos,
como eu queria escrever como ele e não ser ele!
Não, Sartre, os poetas não são homens que recusam a linguagem,
são antes para sempre seus prisioneiros,
teimosamente negando o seu próprio cativeiro.

A podridão da cidade arrasta-se até às margens do rio.
Carcaças de naus e buzinas de cacilheiros perdidas no leito,
iodo a boiar nas minhas narinas,
e um homem cuspido para fora desta cidade.
Porque será tão difícil ser-se português em Portugal?

Entre Belém e a Ajuda os Senhores do Corvos ordenam,
de anéis nos dedos gordos e colarinhos imaculados,
e do alto dos seus palácios e torres de feiticeiros
tecem a trama em que esta cidade se afunda.
Nas minhas mãos seguro os manuscritos
deste poeta de versos tristes e nostálgicos.
Não queria ser ele, deve ser um tipo sério,
demasiado sério.

Atrás de mim passa o comboio,
a martelar as juntas do caminho-de-ferro
pachorrento, as gaivotas a refilarem
neste final de tarde invernoso
e recordo-me
daquele odor azedo do aço nas carruagens
antigas, e estas são modernas, mas às vezes
acho que Lisboa estagnou no tempo,
embora o disfarce como um coxo
que vai fugindo de uma mentira.

Os candeeiros acendem-se
no crepúsculo e as ruas ficam amarelas
e lúgubres. Acendo um cigarro triste
e conformo-me.

Leio os versos de Saúl Villalobos
Aqui, onde os marujos da noite nunca chegam
a Goa, Damão e Diu.

Saúl Villalobos

Friday, March 16, 2007

Na caverna do rapaz chamado Corvo

Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um menino de quinze anos
atormentado pelos dramas da adolescência
e um homem cruel que esqueceu o que é ser menino.

Há uma aldeia de interior onde chovem alforrecas do céu,
perante o pasmo e o terror da população crente.

Há mãos toscas e brutas que se precipitam
sobre o corpo atordoado de uma mulher,
sob a ameaça de uma navalha covarde,
e o vertiginoso espasmo de um orgasmo porco.

Há o silêncio tenebroso que se abate sobre o capim,
e o soldado que, momentos depois, recolhe
as entranhas e os pedaços do melhor amigo
estraçalhado numa mina anti-pessoal.

Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um laboratório de abortos deformados
que lançam guinchos tremendos das suas jaulas.

Há predadores autofágicos que devoram os seus próprios membros
enquanto se esvaem em esguichos de sangue morno.

E há soldados a marchar pelas ruas de uma cidade alemã:
o troar das suas botas negras simultaneamente soberbo,
simultaneamente terrível.

Na caverna do rapaz chamado Corvo
há um gatilho para accionar o fim do mundo.

Saúl Villalobos

Monday, March 05, 2007

Apetece-me ficar aqui deitado a vida toda

Apetece-me ficar aqui deitado a vida toda,
à espera dela...

Deitado a deixar a cidade a rugir lá fora
furiosamente os carros e as pessoas e o cimento
absorvo tudo lentamente hoje em dia

Já quis morrer
ou hibernar numa caverna como um urso.
Na verdade, morro sempre um bocadinho
de cada vez que um dia é uma semana
e uma semana é um mês.

Lembro-me vagamente de como a melhor parte de mim
era reflexo nos olhos dela e estremeço
um homem feito a chorar em cima dos lençóis.
(Um homem feito? Um homem nunca está feito)

Fecho os olhos. Quero viver aqui dentro,
com o sorriso dela, a voz, o toque, os beijos.
Estremeço.

E enquanto os amantes devoram a carne
para que possam preencher os segundos,
eu conto os segundos que me vazam o corpo,
à espera do regresso daquela...


Saúl Villalobos

Saturday, March 03, 2007

Não pares coraçãozinho de papel, não pares

Não pares coraçãozinho de papel, não pares
que a Primavera já lá vai, mas ainda pouco fiz;
Não pares, no teu bater ensopado de querosene:
carvão na boca, veneno no sangue e sonho na alma;
Bum-bop bum-bop rufa o teu tambor bum-bop,
e ainda que sujeitando esta casquinha de noz
aos mais encapelados mares, não pares

Meu coraçãozinho de papel relógio:
o teu vaivém é um acaso,
um prodígio da mecânica das coisas;
Tic-tac, tic-tac, tic-tac
gira a engrenagem na sua cadência regular,
empurrando as agulhas no mostrador,
mas às vezes o ponteiro dos segundos pára e deixa-se ficar.

Por isso, e ainda que eu feche os olhos,
não pares, coraçãozinho de papel, não pares!


Saúl Villalobos